quarta-feira, 20 de julho de 2011

O BAIRRO DA LAMACHEIRA


Em 1869, o Dr José Joaquim de Oliveira herdou a Quinta da Lamacheira, rica em terras férteis e húmidas tendo como culturas predominantes a oliveira, a vinha, a laranjeira (ainda hoje existe um velho pomar no topo sul) a figueira e o marmeleiro.








Em 1941 tomou posse destas terras o Sr José de Oliveira Bairrão, o qual a certa altura decidiu alienar parte da propriedade, do seu lado Nascente, parte essa que organizou em lotes e vendeu aos interessados.








Foi assim que em 1957 surgiu a 1ª casa, construida pela Srª Maria Gomes, tendo-se seguido imediatamente outras, nomeadamente pelas mãos dos Srs José Maia, João Bexiga, António Brunheta e Manuel Pelarigo.








Inicialmente a luz e a água eram fornecidas a partir da quinta, da qual o seu moinho de vento era primordial para o efeito. Entretanto a população foi aumentando, as casas foram surgindo e as fontes de abastecimento revelaram-se insuficientes, pelo que a população se uniu formando um grupo que tinha por lema "Unidos venceremos". Este grupo formado pelos Srs Domingos Libório, António Brunheta, José Maia e João Dias, começou por procurar soluções, nomeadamente nas redes de abastecimento público tendo conseguido o abastecimento de electricidade e água, não sem algum esforço, pois tiveram que andar a cavar valas para os tubos e contribuir monetáriamente. Mas conseguiram!








Seguiu-se alguma acalmia, mas o bairro além de continuar a crescer continuava isolado do Tramagal, apesar de ter apenas a linha do caminho de ferro de permeio. Os acessos eram literalmente medievais; tanto assim era que qualquer serviço em Tramagal tinha um preço, mas se fosse para a Lamacheira era superior por ser "fora do Tramagal" (por exemplo os serviços de enfermagem); um caso em que "era menos" era na moagem da azeitona que dava sempre menos azeite se era da linha do combóio para baixo; o Pároco, que na altura acompanhava os defuntos a partir de suas casas, à Lamacheira não ía (na altura não havia casa mortuária); até há bem pouco tempo os táxis cobravam um preço superior para ir à Lamacheira. Ainda hoje há quem diga que a Lamacheira não é Tramagal.








Veio a revolução do 25 de Abril e o grupo entretanto reforçado com o Sr João Serafim transformou-se em Comissão de Moradores tendo sido então aberta a actual Rua da Lamacheira, com a anuência dos proprietários, trabalho, donativos e apoios materiais. Ficou assim o Bairro da Lamacheira ligado à vila através da Rua da Barca.






Seguiu-se o telefone público, com construção em alvenaria da respectiva cabine no quintal do Sr Domingos Libório, com porta directa para a rua. O Sr Domingos Libório foi um homem que além de ter aceite a instalação da cabine no seu quintal, também assumiu a responsabilidade de dar recados e chamar pessoas ao telefone, mesmo que para isso tivesse que correr o Tramagal a pé, o que fez imensas vêzes, pois o telefone sendo publico servia todo o Tramagal.






Outras lutas existiram, talvêz, menos conhecidas, mas igualmente frutuosas, nomeadamente para a recolha periódica do lixo que entretanto já se fazia no Tramagal, mas na Lamacheira não; também a ameaça de encerramento da passagem de nível uniu esforços de tal forma que quem tinha carro chegou a passar várias vêzes no local para inflacionar o recenseamento que a CP estava a fazer.






Actualmente o Bairro da Lamacheira (e quintas limitrofes) conta com 49 habitações e 92 residentes.
O asfaltamento da Rua da Barca e todo o Bairro da Lamacheira ocorreu apenas em 1997.
A Comissão de Moradores extinguiu-se naturalmente em 1976, tendo no dia 23 de Janeiro de 2005, pela mão do Sr João Dias, transmitido todo o seu espólio histórico à Associação Convívio - Lamacheira e Barca; pelo meio existiram o Clubinho entretanto extinto e o Grupo de Jovens que deu origem a esta associação.
Hoje, o Bairro da Lamacheira, bairro com três ruas nomeadamente a Rua da Lamacheira, a Rua Dr José Joaquim de Oliveira e a rua José Joaquim Bairrão de Oliveira, ladeado a Este pela Quinta da Barca e a Oeste pela Quinta da Lamacheira,unido à vila através da Rua da Barca é um bairro como tantos outros diferenciando-se pela permanente busca de melhores condições para as suas gentes, pela seu espirito associativo comprovado desde a sua origem no quase longinquo ano de 1957, pelas boas relações de amizade ou simples vizinhança que ainda hoje são apanágio da maioria dos seus habitantes.
O que trará o futuro para a Lamacheira? O prolongamento da Rua da Lamacheira através da Quinta da Lamacheira em direcção à GEOFER, dando-nos uma via pró-moderna em alternativa à actual azinhaga? Uma requalificação merecida para o Porto da Barca? Talvez com um polo do anunciado Museu da MDF? Um percurso pedonal com alguns equipamentos destinados à contemplação, à ginástica, à pesca? Alguma dinamização que traga a população até ao rio?
O futuro o dirá!